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Mostrando postagens de 2014
O HOMEM QUE XINGOU DEUS           (Wlady) Naqueles tempos, início do século XX, os patriarcas colonos desejavam ter muitos filhos machos, homens, e que fossem saudáveis e fortes, para o trabalho na lavoura, na produção da família, para dar mais lucro e rentabilidade. Mas Nono Marcos, um italiano de 93 anos, ao morrer, pediu perdão para Deus por ter xingado o seu Criador do céu e da terra muitas vezes na sua juventude. Pediu perdão para a mulher velha companheira de sete décadas por ter praguejado contra ela, contra seu ventre. Disse, no leito de morte, que se arrependia por isso. Quando casaram, em seguida programaram o primeiro filho. Seria um italiano de olhos verdes e cachos loiros. Com o pé grande e as mãos fortes, imaginava Marcos. Na beira da lareira, bebendo um vinho caseiro, discursava para Natália que tricotava em silêncio, saindo vez que outra para reparar nas panelas no fogão à lenha. Chegou o dia do parto. Correria d...
O BOI           (Wlady) Barroso era um boi não muito velho, que vivia na pampa gaúcha, filho de um touro brabo que era pai de uma boa manada na região. Criado pela mãe, a vaca Joana, da Fazenda Jacarandá, lembrava de ser amamentado nas manhãs frias do inverno rígido daqueles pagos sulinos. A geada branqueava os campos que aos poucos eram aquecidos pelos raios do sol quando este aparecia. Barroso se criou pastando nestes campos, fugindo das chuvas nos matos escassos da redondeza, namorando com as novilhas da sua idade. “Sacanagem me fizeram quando eu era terneiro, me caparam, tiraram minhas bolas, não posso gerar filhos”, reclamava Barroso para sua amada Carminha, uma linda vaca que pastava com ele, todos os dias, depois comiam sal e bebiam água no açude. Nestas horas se tocavam, se beijavam com as línguas molhadas. Todos sabiam que namoravam. Barroso olhou para o lado e reconheceu um a um dos bois que estavam no curral do frigor...
ADRENALINA            (Wlady) Carlos Valente olhou para o infinito e ouviu o som da chuva e o tumulto no céu com raios e trovões. Limpou o rosto e seguiu caminhando no meio daquele temporal. Não podia parar, nunca, tinha que chegar rapidamente a um lugar mais seguro do que aquele descampado escuro. Não adiantaria parar, pensar outras alternativas, não havia outras alternativas, a decisão era única, caminhar, correr, para algum outro lugar. O gado estava escondido no meio do mato, naquela escuridão interrompida pelos relâmpagos que clareavam a terra. Valente enfrentava os pingos pesados e frios da chuva intensa, mastigava a água que caía sobre seu rosto vindo dos cabelos encharcados. Não desistia, aumentava os passos, corria um pouco, e quando cansava, parava e sentava no chão para respirar. Não havia fome, apenas pressa. Tinha que chegar a algum lugar. Tinha que voltar para a cidade, precisava ver as luzes das casas e prédios...
Reamanhecer na praia Rui  era um pobre homem gordo. Pobre porque ganhava pouco. Gordo por ser barrigudo. Pai de 7 filhos. Todos menores. O mais velho tinha 16 anos. O mais novo tinha 2. E todos eram homens. Um fato real e estranho. Uma família onde os 7 filhos nasceram machos. Humanos machos. E a mãe, dona Sônia, sempre sonhou em ter uma menina, uma humana fêmea, para criar e enfeitar. Para arrumar toda de fitas e vestidinhos. Depois da sétima tentativa, quando nasceu Bruninho, o caçula, dona Sônia disse: "chegou! Não tento mais."             Rui acordou naquela manhã com os primeiros raios de sol que entraram pela telinha da barraca, no câmping da praia de rio. Foi até uma torneira na grama e lavou o rosto. Despejou água nos cabelos e deixou escorrer pelos peitos, pela barriga. Lembrou de quando era novo, tinha  seus 16 anos, e acampava naquele local de areias brancas e água azul quando  o céu estava azul. ...